Método, narcisismo e machismo
Recentemente, Anya Taylor-Joy falou o seguinte sobre method acting:
Se você reparar, mulheres não fazem method acting porque temos coisas para cuidar, então não podemos perder completamente a cabeça.
A atiz explicou que vê a atuação como uma espécie de “psicose controlada”: passar horas pensando como a personagem, se movimentando como ela e, em alguns casos, mantendo esse estado fora das filmagens. E completou dizendo que não consegue imaginar fazer isso o tempo inteiro porque, afinal, você está trabalhando com centenas de pessoas e é sua responsabilidade colaborar com elas.
Embora fundamentada na realidade, essa fala da Anya distorce o que é método. Ou, talvez, seja mais justo dizer que o comportamento de atores que se dizem adeptos do Método causa essa distorção.
Afinal, o que é Method Acting?
O chamado Método surgiu a partir da influência do trabalho do diretor e teórico russo Konstantin Stanislavski, no início do século XX. Mas é importante fazer uma distinção: Stanislavski desenvolveu o que ficou conhecido como seu Sistema; nos Estados Unidos, diferentes professores desenvolveram abordagens próprias a partir dessas ideias. Uma das mais influentes foi a de Lee Strasberg, que passou a ser conhecida como The Method.
E o objetivo básico não era transformar o ator numa espécie de lunático profissional. Era treinar o ator. Treinar concentração, imaginação, percepção, relaxamento, memória afetiva e, principalmente, a capacidade de produzir respostas emocionais realistas dentro de circunstâncias imaginárias. O trabalho de Strasberg dava bastante importância à chamada sense memory, ou memória sensorial: utilizar lembranças e estímulos dos sentidos para tornar determinada situação imaginária fisicamente mais concreta para o ator.
Mulheres não fazem Method Acting?
Essa é outra distorção. Uma mulher dificilmente se sentiria segura e confiante agindo de forma esquizoide em um set de filmagem ou sendo rude com a equipe. Ela seria chamada de doida, de difícil e provavelmente teria a reputação manchada. porém, muitas utilizam o Método ou já utilizaram para algum personagem especifico.
A Ellen Burstyn, que foi aluna de Lee Strasberg nos anos 1960, tem uma fala sobre o Método que eu acho particularmente boa. Em uma entrevista à Criterion, sobre Alice Não Mora Mais Aqui, perguntaram justamente sobre os equívocos em torno do Método — a ideia de que ele significa permanecer no personagem o tempo inteiro, fazer pesquisas extremas ou se comportar como uma babaca no set, tratando colegas de forma rude ou simplesmente agindo de forma socialmente inadequada. Burstyn, então, explicou que o Método é treinar os sentidos para responder a estímulos imaginários. Ou seja: você não precisa realmente viver aquilo. Como exemplo, ela cita Medeia. Imagina você ter que matar seus filhos para interpretar a personagem de forma adequada?
Meryl Streep também já falou que utiliza o Método. Kate Winslet, Michelle Williams, Hilary Swank, Charlize Theron e Natalie Portman também. E isso não que dizer que elas deixaram famílias de lado ou agiram como escrotas. O foco real do método é o uso de gatilhos psicológicos internos para gerar realismo cênico.
Marketing do ator sofredor
O problema é que Hollywood criou uma mitologia em torno do ator que sofre pelo papel. Quanto mais extrema a preparação, mais impressionante parece ser. E aí isso é muito usado no marketing do filme e no marketing pessoal dos atores. Como todo o marketing sobre uns supostos “presentes” inoportunos que Jared Leto teria enviado a seus colegas de elenco em Esquadrão Suicida por estar “dentro”do personagem Coringa. O que não passa de assédio, se é que realmente ocorreu. Enfim, o problema é o individuo, não o Método, que não mandou ninguém enviar rato morto pra casa dos outros.
Tem uma entrevista do Michael Pitt da época do Ghost in the Shell, que também é um ator que utiliza o método, em que o jornalista pergunta sobre a preparação para filme e ele afirma não gostar de discutir sua preparação por entender que faz parte do trabalho, e principalmente, é muito mais um processo interno. Daniel Day Lewis também falou recentemente algo semelhante. Ele afirmou que ficaria horrorizado em saber que algo que ele fez para se preparar estaria atrapalhando o processo criativo dos colegas e que as histórias sobre preparações físicas são “os detalhes menos importantes”. Para Lewis, os métodos utilizados pelo ator são apenas um meio para chegar a um fim: apresentar a “um ser humano vivo e pulsante” para seus colegas. E essa parte é especialmente importante. Existem várias maneiras de atuar. não há uma mais legitima que outra.
O objetivo do Método não é fechar o ator para os outros atores. É justamente o contrário. É estar preparado para responder a eles. Afinal, atuação é reação também. Para ouvir. Para reagir. Para estar presente. Para que, diante da câmera, aquele personagem pareça vivo.






