O Horror da Realidade Fraturada

Texto originalmente publicado na plataforma Peliplat

O que resta de nós quando nossa percepção da realidade é determinada por feridas do passado? Assisti a Santa Sangre (1989) na última sexta-feira e aproveitei o tema do mês para escrever sobre. O que realmente aterroriza nesse grotesco giallo de Alejandro Jodorowsky, não é o sangue ou a violência dos assassinatos em si (um tanto, sim, mas não só), mas a maneira como o trauma consegue sequestrar toda a identidade e percepção da realidade de uma pessoa.

Na primeira cena, somos apresentados a Fênix, confinado em um manicômio, em um estado em que comporta-se como pássaro e não parece tomar conhecimento de nada ao seu redor. Através de flashbacks vívidos e dolorosos, o filme nos leva ao circo de sua infância, um palco de traumas e pesadelos.

A mãe de Fênix, Concha, uma trapezista destemida, mas emocionalmente instável e o pai, Orgo, um lançador de facas e adúltero, formam o núcleo familiar tóxico. A infância de Fênix acontece no circo, um lugar que, à primeira vista, é um turbilhão de cores e estranhezas. Mas também é um lar. Ali, os artistas marginalizados, o anão, os palhaços, a jovem trapezista Alma, são a única estrutura de acolhimento que se opõe à brutalidade de seus pais.

A morte do elefante e a tatuagem forçada por seu pai são rituais dolorosos que marcaram o fim da sua inocência, mas tragédia familiar o leva ao colapso total. A formação psicológica de Fênix é definida por um modelo parental distorcido, no qual a agressão e a sexualidade se fundem na sua visão de amor. O clímax dessa brutalidade — quando Concha presencia mais uma traição do marido e o ataca com ácido e ele cortá-lhe os braços e comete suicídio em seguida — é o evento que dilacera a psiquê de Fênix, que assiste a tudo.

A violência familiar ocorre de forma passional e rápida, mas o terror se arrasta, lento, pelo resto da vida. A mente de Fênix é incapaz de processar essa sequencia de eventos. Durante o resto da infância e parte da vida adulta, ele permanece quase catatônico, mas, por acaso, seu caminho acaba cruzando novamente com amante de seu pai. Rever a mulher faz o passado retornar fragmentado, uma realidade substituta, cheia de fúria.

Nessa realidade, Concha vive. Ela é uma entidade vingativa, que transforma Fênix em substituto para seus braços e mãos mutilados, um autômato, cujas ações são controladas pela memória e desejo dessa versão dela. O assassinato, portanto, não é um ato inerente a Fênix, mas a exteriorização de uma psicose de submissão, em que ele busca servir à mãe ao ponto de anular sua própria identidade.

A tragédia de Fênix é a perda da autonomia. Sua realidade é uma sucessão de alucinações e dissociações, vindas da visão que ele possui da mamãe em decorrência do trauma: uma mulher amarga e sanguinária que o força a eliminar todas as mulheres por quem ele se sente atraído.

Em seu ato final, Fênix tenta libertar-se da mãe, destruíndo o manequim que representa sua mãe, a violência final contra o objeto é maneira que sua mente fraturada encontrou para lidar com a dor.

Em Santa Sangre, o horror está no aprisionamento da mente por um trauma que se recusa a morrer.

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