Clássicos do faroeste, samurais revoltados e as primeiras impressões de uns lançamentos de 2026
O Saci (1953)
No Sítio do Picapau Amarelo, Pedrinho decide capturar o Saci-Pererê e consegue aprisionar o travesso ser de uma perna só dentro de uma garrafa. Ao mesmo tempo, a Cuca lança um feitiço sobre Narizinho, transformando-a em pedra. Para salvar a prima, Pedrinho precisa libertar o Saci e se unir a ele em uma aventura pelo mundo fantástico da mata.
Primeira adaptação cinematográfica de uma obra do hoje cancelado Monteiro Lobato, o filme é também uma das primeiras grandes produções infantis do cinema brasileiro e a primeira versão audiovisual do universo do Sítio do Picapau Amarelo. Apesar das limitações técnicas da época, a produção compensa com criatividade, utilizando truques de câmera engenhosos, cenários rurais autênticos e uma trilha sonora eficiente para dar vida ao imaginário folclórico brasileiro.
Um Clarim ao Longe (A Distant Trumpet, 1964)
O jovem tenente Matthew Hazard,(Troy Donahue) recém-formado em West Point, é enviado para um isolado forte na fronteira com o México. Lá, precisa lidar com os constantes conflitos com os apaches, as exigências da vida militar e um complicado dilema amoroso que o divide entre sua noiva e a esposa de um oficial.
Último filme dirigido por Raoul Walsh, Um Clarim ao Longe é um faroeste clássico que combina romance, ação e reflexão histórica. Antecipando alguns elementos do western revisionista, o filme demonstra empatia pelos povos indígenas e apresenta uma visão mais humana dos conflitos entre o Exército dos Estados Unidos e as nações nativas. As cenas de combate são conduzidas com vigor e senso de espetáculo, mantendo o ritmo envolvente do início ao fim.
Hitman, o Rei dos Assassinos (Contract Killer / Sat Sau Chi Wong, 1998)
Jet Li interpreta um ex-soldado que, sem dinheiro e sem perspectivas, decide entrar para o submundo dos assassinos de aluguel em Hong Kong. Em sua nova vida, ele se associa a um vigarista que passa a gerenciar sua carreira. A grande chance da dupla surge quando um poderoso chefe da Yakuza é morto por um vigilante conhecido como “Rei dos Assassinos”, desencadeando uma recompensa de 100 milhões de dólares para quem eliminar o misterioso personagem. Em busca do prêmio, eles se envolvem em uma caçada frenética que atrai rivais, mafiosos japoneses e a própria polícia.
As cenas de luta são excelentes e mantêm o filme sempre empolgante. O ritmo ágil é reforçado por momentos de humor bem dosados, integrados de forma natural à narrativa. A química entre o personagem ingênuo vivido por Li e o malandro carismático interpretado por Eric Tsang funciona muito bem, rendendo situações divertidas sem prejudicar a ação.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You, 2025)
Linda (Rose Byrne) é uma terapeuta e mãe sobrecarregada que tenta conciliar a doença da filha, um casamento em crise, dificuldades financeiras e uma série de problemas que parecem se acumular sem trégua. À medida que a pressão aumenta, sua percepção da realidade começa a se tornar cada vez mais instável.
Escrito e dirigido por Mary Bronstein, o filme oferece um retrato intenso da ansiedade, da sobrecarga da maternidade e do desgaste emocional. O grande destaque é a atuação de Byrne, que sustenta com força uma narrativa claustrofóbica e angustiante, transmitindo ao espectador o mesmo cansaço e desorientação vividos pela protagonista.
A Cronologia da Água (The Chronology of Water, 2025)
Baseado nas memórias de Lidia Yuknavitch, o filme acompanha a trajetória de uma jovem marcada por traumas familiares, relacionamentos abusivos e dependência química, que encontra na escrita uma forma de reconstruir sua identidade e dar sentido à própria vida.
Dirigido por Kristen Stewart, o longa utiliza uma narrativa não linear para traduzir a intensidade e a fragmentação das lembranças da protagonista, reforçando o caráter subjetivo e doloroso de sua experiência. Em vez de seguir a estrutura convencional das cinebiografias, aposta em uma montagem sensorial que reproduz o fluxo de pensamentos, memórias e emoções da personagem. O resultado é envolvente na maior parte do tempo, embora a insistência em determinados recursos acabe gerando uma sensação de repetição que, em alguns momentos, torna a experiência um pouco cansativa.
Perdita Durango (1997)
Perdita Durango (Rosie Perez) é uma mulher impulsiva e completamente indiferente às convenções morais que cruza o caminho de Romeo Dolorosa (Javier Bardem), um criminoso carismático envolvido com rituais obscuros. Unidos por uma atração intensa e destrutiva, os dois embarcam em uma jornada caótica pela fronteira entre o México e os Estados Unidos, sequestrando um jovem casal e deixando um rastro de violência por onde passam.
O excesso de violência, o humor macabro e a estética deliberadamente grotesca ajudam a manter o filme envolvente durante boa parte de sua duração. No entanto, a narrativa perde força aos poucos e acaba chegando a um desfecho relativamente convencional, menos impactante do que a premissa e o tom provocador sugeriam.
Conspiração Fatal (Storm Catcher, 1999)
Jack Holloway (Dolph Lundgren) é um dos mais habilidosos pilotos de elite da Força Aérea dos Estados Unidos. Sua carreira, porém, é destruída da noite para o dia quando ele é falsamente acusado de traição, roubo de uma aeronave militar e assassinato. Envolvido em uma conspiração liderada por um grupo extremista que pretende utilizar o caça roubado para bombardear Washington, Holloway se vê forçado a fugir enquanto tenta provar sua inocência e impedir uma tragédia de proporções catastróficas.
Com poucos recursos à disposição, o diretor Anthony Hickox aposta em um ritmo acelerado e em eficientes sequências de ação aérea e combate físico para manter a tensão constante. Já Dolph Lundgren entrega exatamente o que o público espera dele: uma presença física marcante e carismática, incorporando sem constrangimento os clichês do herói injustiçado que enfrenta sozinho um sistema corrupto, resolvendo seus problemas na base dos punhos, das armas e da determinação.
Blue Moon – Música e Solidão (Blue Moon, 2025)
Drama biográfico centrado em Lorenz Hart (Etham Hawke), célebre compositor e letrista que formou uma histórica parceria com Richard Rodgers. A trama acompanha uma noite decisiva em sua vida, marcada pelo declínio de sua carreira, conflitos pessoais e pela difícil constatação de que seu antigo parceiro artístico seguiu em frente sem ele.
Dirigido por Richard Linklater, o filme aposta em diálogos afiados e na construção psicológica de seu protagonista para explorar os bastidores da criação artística e as fragilidades escondidas por trás do sucesso. O grande destaque é a atuação de Ethan Hawke, que transmite com sensibilidade tanto o talento quanto a melancolia de Hart. Embora adote um ritmo mais contemplativo e privilegie as conversas em vez da ação, Blue Moon oferece um retrato envolvente e emocionante de um artista tentando encontrar sentido em meio às transformações inevitáveis da vida.
Máquina de Guerra (War Machine, 2026)
Um grupo de recrutas das forças especiais dos Estados Unidos encara a fase final de um treinamento brutal. O que deveria ser apenas mais uma simulação militar sai dos trilhos quando eles encontram uma máquina alienígena mortal em uma região isolada. Sem comunicação, sem respostas e sem qualquer ideia do que estão enfrentando, os soldados precisam lutar para sobreviver contra uma ameaça muito além de suas capacidades.
Estrelado pelo fortão Alan Ritchson, o filme tenta combinar ação militar e ficção científica seguindo a cartilha de Predador, mas o resultado fica bem mais próximo de Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles. Embora entregue algumas cenas de combate e efeitos visuais razoáveis, a produção se perde em sequências repetitivas dedicadas a transformar o protagonista em um mártir ambulante, abraça um patriotismo de gosto duvidoso e termina preocupada em vender uma continuação da forma mais clichê possível.
Inferno na Terra (Stalag 17, 1953)
Ambientado em um campo de prisioneiros de guerra alemão durante a Segunda Guerra Mundial, Stalag 17 acompanha um grupo de soldados americanos que passa a suspeitar da existência de um informante entre eles após sucessivas tentativas de fuga terminarem em fracasso. O principal suspeito é J.J. Sefton(William Holden) , um prisioneiro cínico, oportunista e individualista que parece lucrar com a própria situação, tornando-se alvo da desconfiança e da hostilidade dos demais detentos.
O filme combina suspense, drama e comédia, embora seu humor nem sempre funcione bem. Em vários momentos, a representação dos nazistas se aproxima da caricatura, e algumas situações chegam a lembrar uma comédia pastelão. Fiquei com a impressão de que teria apreciado mais a obra, se Billy Wilder tivesse adotado um tom mais sério, próximo ao de trabalhos como Ace in the Hole (Montanha dos Sete Abutres) e Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses). Ainda assim, o mistério em torno da identidade do informante é envolvente e sustenta o interesse ao longo de toda a narrativa.
Rebelião (Samurai Rebellion/ ôuchi-shinshû: Hairyô-tsuma shimatsu ,1967)
Isaburo Sasahara (Toshiro Mifune), um experiente samurai leva uma vida relativamente pacífica até que seu clã ordena que seu filho se case com Ichi, uma concubina rejeitada por um poderoso senhor feudal. Anos depois, quando o mesmo senhor exige que a jovem retorne ao seu domínio, a família decide desafiar a autoridade do clã.
Dirigido por Masaki Kobayashi, o filme é um poderoso drama histórico que utiliza elementos do gênero chanbara para construir uma contundente crítica ao autoritarismo e à rigidez das estruturas feudais. A atuação de Mifune é extraordinária, transmitindo com intensidade a dignidade, a frustração e a revolta de um homem que decide enfrentar uma ordem injusta em nome de seus princípios e de sua família.
Visualmente, a obra também é uma verdadeira aula de cinema com seu preto e branco elegante e os enquadramentos precisos para retratar toda a opressão sofrida pelos personagens. Quando a violência finalmente irrompe no terceiro ato, ela não é apresentada como espetáculo, mas como a consequência dolorosa e inevitável de um sistema opressivo.
Com uma direção precisa, uma narrativa emocionante e um desfecho profundamente impactante, Samurai Rebellion é uma reflexão poderosa sobre liberdade individual, dever, honra e resistência. Uma obra-prima atemporal sobre a luta do indivíduo contra as estruturas de poder.
Takeshis’ (2005)
Takeshis’ é uma obra experimental que mistura realidade e fantasia ao acompanhar duas versões de Takeshi Kitano. De um lado está Beat Takeshi, uma celebridade rica, influente e consagrada pelo cinema; do outro, um homem comum chamado Kitano, que sonha com a fama e tenta, sem sucesso, conseguir papéis em testes de elenco. À medida que suas trajetórias começam a se cruzar e se confundir, o filme mergulha em uma sucessão de sonhos, reflexões e situações absurdas que desafiam a lógica narrativa convencional.
Com Takeshis’, Kitano abandona a narrativa linear para criar um mosaico de imagens, ideias e autorreferências permeado por um humor surreal. O resultado é uma obra intrigante e profundamente pessoal, que oferece um olhar singular sobre a identidade, a fama e o próprio processo criativo do diretor. Embora esteja longe de ser seu trabalho mais acessível — ou mesmo seu melhor filme —, uma experiência curiosa.
Nouvelle Vague (2025)
Nouvelle Vague recria os bastidores da produção de Acossado (À bout de souffle, 1960), acompanhando o jovem Jean-Luc Godard (Marbeck) durante a realização do filme que se tornaria um dos marcos do cinema francês.
Dirigido por Richard Linklater, o longa encontra grande parte de seu charme na observação do processo criativo pouco convencional de Godard e de sua relação com o elenco, especialmente com Jean Seberg (Zoey Deutch) frequentemente intrigada e desconcertada pelos métodos imprevisíveis do diretor. A reconstituição de época é elegante e detalhada, capturando com autenticidade a atmosfera de experimentação artística e a efervescência cultural que marcaram aquele período.
Motorista de Fuga (Eenie Meanie, 2025)
Edie (Samara Weaving) é uma ex-piloto de fuga talentosa que tentou deixar seu passado criminoso para trás e agora busca uma vida normal. No entanto, seus planos são destruídos quando seu ex-namorado e antigo parceiro de crimes, um golpista de segunda categoria, se mete com em confusão. Para salvar a vida dele, Edie é forçada por seu antigo chefe a aceitar um último e perigoso trabalho.
Dirigido por Shawn Simmons e estrelado por Samara Weaving, As perseguições de carro e a presença carismática de Weaving sustentam a bagaça, mas a trama nem sempre encontra equilíbrio entre drama e comédia e o par de Edie é irritante.
Vida Privada (A Private Life, 2025)
Uma renomada psiquiatra (Jodie Foster) vê sua vida aparentemente equilibrada ser abalada pela morte repentina de uma de suas pacientes. Determinada a descobrir o que realmente aconteceu, ela inicia uma investigação pessoal que a leva a enfrentar segredos, dilemas morais e aspectos desconfortáveis de sua própria vida.
Dirigido por Rebecca Zlotowski, o filme combina drama psicológico, humor e mistério com elegância e sutileza, construindo uma reflexão sensível sobre culpa, responsabilidade e os limites do que somos capazes de conhecer sobre os outros. Embora não deixe uma impressão duradoura, a obra merece atenção, sobretudo para apreciar a fluência em francês de Jodie Foster, sempre bem.
Esqueça Paris (Forget Paris, 1995)
Mickey Gordon (Billy Crystal) é um árbitro profissional da NBA que viaja para Paris para realizar o último desejo de seu pai falecido: ser enterrado na França. Durante a viagem, um extravio de bagagem o leva a conhecer Ellen Andrews (Debra Winger), uma funcionária americana de uma companhia aérea que vive na cidade. Os dois se apaixonam rapidamente e decidem se casar. Porém, o verdadeiro desafio começa quando retornam aos Estados Unidos. Contada de forma não linear por meio dos relatos de seus melhores amigos reunidos em um restaurante, a história acompanha os altos e baixos do relacionamento, os conflitos causados por suas carreiras e as dificuldades de manter a paixão viva em meio à rotina.
Enquanto a maioria das comédias românticas encerra sua história quando o casal finalmente fica junto, o filme dirigido por Billy Crystal parte justamente desse ponto para explorar, com humor e sensibilidade, os desafios da vida a dois. A química entre Crystal e Debra Winger é o grande destaque da produção, transmitindo com naturalidade a cumplicidade e os atritos de um casal que se ama de verdade. Já o recurso de usar os amigos como narradores da história, reunidos em uma mesa de jantar, dá ao longa um ritmo leve e envolvente, além de acrescentar um charme teatral que funciona bem.
Anjos do Arrabalde (1987)
O filme acompanha a rotina exaustiva de três professoras de uma escola pública da periferia de São Paulo. Mal remuneradas e trabalhando em condições precárias, elas tentam preservar a dignidade enquanto lidam com conflitos pessoais intensos fora da sala de aula. Entre casos de violência doméstica, solidão, desejos frustrados e a constante sensação de abandono, suas trajetórias se cruzam em um cotidiano marcado pela luta diária para sobreviver à margem da grande metrópole.
Dirigido por Carlos Reichenbach, Anjos do Arrabalde foge dos clichês do cinema de denúncia social para concentrar seu olhar na humanidade e na intimidade de suas protagonistas. O grande mérito do longa está na combinação entre um realismo contundente e uma profunda empatia por suas personagens. Sem recorrer a idealizações, Reichenbach constrói mulheres complexas e multifacetadas, revelando com sensibilidade as pressões sociais, econômicas e emocionais que enfrentam em um ambiente frequentemente hostil.
O Jogo do Predador (Apex, 2026)
Sasha (Charlize Theron), uma aventureira ainda abalada pela morte traumática do marido durante uma escalada, decide viajar sozinha para uma região remota da Austrália em busca de recomeço e superação. O que parecia ser uma jornada de autoconhecimento, porém, se transforma em um pesadelo quando ela passa a ser perseguida por um assassino (Taron Egerton) que caça suas vítimas em meio à natureza selvagem.
Trata-se de um suspense de sobrevivência que até funciona bem na maior parte do tempo, apoiado pelas belas paisagens australianas e pela entrega física e emocional de Theron no papel principal. Ainda assim, a narrativa segue caminhos bastante previsíveis e acrescenta pouco às fórmulas já conhecidas do subgênero de caça e caçador.
A Noiva! (The Bride!, 2026)
Como alguém que não gostou da xaropada dirigida por Guillermo del Toro, achei um alívio assistir a esta inspirada releitura do universo criado por Mary Shelley. A trama acompanha um monstro solitário (Christian Bale) que viaja para Chicago na década de 1930 em busca da Dra. Euphronious (Annette Bening), pedindo sua ajuda para criar uma companheira. Juntos, eles ressuscitam uma jovem assassinada, dando origem à Noiva (Jessie Buckley). À medida que ela desenvolve consciência própria, identidade e desejos, passa a desafiar as expectativas daqueles que a criaram, desencadeando uma história que mistura romance, horror e rebeldia.
Dirigido por Maggie Gyllenhaal, o filme reimagina o mito de Frankenstein com uma abordagem moderna, estilizada e visualmente exuberante. A produção se destaca pela atmosfera gótica, pelo refinado design de época e pelas reflexões sobre autonomia, identidade e criação, além de demonstrar uma notável originalidade. O grande destaque é a performance arrebatadora de Jessie Buckley, cuja transformação em uma figura imprevisível e irresistivelmente caótica é fascinante de acompanhar. Christian Bale também entrega um monstro melancólico, vulnerável e ao mesmo tempo ameaçador.
Mesmo quando abraça o excesso e o caos, o filme mantém uma força visual impressionante, sustentada por uma direção de arte impecável. O resultado é uma releitura ousada, elegante e memorável de um dos personagens mais icônicos da literatura de horror. Desde já, um dos melhores do ano.
Vera Cruz (1954)
Logo após o fim da Guerra Civil Americana, o ex-soldado confederado Ben Trane (Gary Cooper) parte para o México em busca de dinheiro trabalhando como mercenário. No caminho, ele se junta a Joe Erin (Burt Lancaster), um fora da lei carismático, egoísta e extremamente perigoso que lidera um grupo de pistoleiros. Os dois são contratados pelo imperador Maximiliano I para escoltar uma jovem condessa até a cidade de Vera Cruz. Porém, a missão esconde um segredo valioso: a carruagem transporta uma fortuna em ouro destinada a financiar as forças imperiais. A carga desperta o interesse dos revolucionários juaristas, mas também a cobiça dos próprios mercenários, dando início a um perigoso jogo de traições, alianças temporárias e sobrevivência.
Dirigido por Robert Aldrich, Vera Cruz é um dos grandes marcos de transição do faroeste clássico para uma abordagem mais cínica e desencantada do gênero. O filme abandona o romantismo e o maniqueísmo tradicionais de Hollywood para retratar um mundo onde quase ninguém é digno de confiança e onde o dinheiro fala mais alto que qualquer ideal. Essa visão mais dura e ambígua ajudou a pavimentar o caminho para os faroestes de Sergio Leone e Sam Peckinpah nos anos seguintes.
O grande destaque da produção é o confronto de personalidades entre seus dois protagonistas. Gary Cooper mantém a presença digna que o consagrou, mas aqui marcada pelo desencanto e pelo pragmatismo, enquanto Burt Lancaster entrega uma das atuações mais vibrantes de sua carreira, exibindo um sorriso constante que torna seu personagem ainda mais imprevisível e ameaçador. Filmado em belas locações mexicanas, o longa combina cenas de ação envolventes com um roteiro ágil. O resultado é um clássico indispensável: divertido, influente e deliciosamente amoral.
O Momento (The Moment, 2026)
Falso documentário que acompanha Charli XCX enquanto tenta lidar com as pressões da fama, as exigências da indústria musical e os preparativos para sua primeira grande turnê em arenas. Misturando realidade e ficção, o filme satiriza os bastidores do estrelato pop contemporâneo e explora os efeitos da exposição constante sobre a identidade artística e a vida pessoal de seus protagonistas.
The Moment aposta em uma abordagem metalinguística e irreverente para refletir sobre a cultura das celebridades e a transformação da arte em produto, mas o resultado é mais inofensivo do que provocador, ficando aquém da acidez que sua premissa sugere. O principal destaque é a performance hilária de Alexander Skarsgård e algumas poucas tiradas de humor que mantêm o interesse no filme.
Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (Return to Silent Hill, 2026)
James Sunderland (Jeremy Irvine), um homem consumido pelo luto, acredita que sua esposa falecida pode estar viva e retorna à misteriosa cidade de Silent Hill. Lá, ele se vê cercado por criaturas grotescas e manifestações que parecem materializar sua culpa, seus traumas e as lembranças mais dolorosas de seu passado.
Dirigido por Christophe Gans, que também comandou a primeira adaptação cinematográfica da franquia, o filme passa a impressão de ter sido concebido como uma celebração dos 20 anos daquela produção. Se essa era realmente a intenção, no entanto, faltou um investimento maior. A trama é interessante e a direção de Gans é sempre boa, mas os efeitos digitais deixam bastante a desejar e frequentemente comprometem a imersão.
É mais uma prova de que produções de orçamento limitado costumam se beneficiar muito mais de atmosfera, sugestão e efeitos práticos do que de CGI mal-acabado. Ainda assim, algumas boas escolhas de direção e a força do material de origem evitam que o resultado se torne uma completa perda de tempo.
Missão: Refúgio (Shelter, 2026)
Um ex-agente secreto britânico (Jason Statham) leva uma vida isolada em uma remota ilha na costa da Escócia. Sua rotina tranquila muda completamente quando ele resgata uma jovem durante uma tempestade e acaba se tornando alvo de uma conspiração ligada aos serviços de inteligência para os quais trabalhou no passado.
Dirigido por Ric Roman Waugh, o filme entrega exatamente o que se espera de um thriller de ação protagonizado por Statham: perseguições, confrontos intensos e um herói implacável enfrentando adversários perigosos. A trama segue caminhos bastante familiares e reserva poucas surpresas, mas a direção mantém um ritmo eficiente e as cenas de ação cumprem bem sua função. Além disso, a relação entre o protagonista e a garota que ele protege consegue acrescentar um toque emocional à história. Sem reinventar o gênero, Shelter funciona como um bom entretenimento descomplicado para quem busca uma boa dose de ação. Tá bom assim.
Manual Prático da Vingança Lucrativa (How to Make a Killing, 2026)
Becket Redfellow ( Glen Powell) é um homem comum que cresceu longe dos privilégios de sua família bilionária. Quando sua mãe engravidou aos 18 anos, ela foi abandonada pelos parentes e deixada à própria sorte, privando o filho da fortuna que poderia ter herdado. Agora, lutando para pagar as contas e consumido pelo ressentimento, Becket está disposto a fazer o que for necessário para recuperar aquilo que acredita ser seu por direito — mesmo que isso signifique eliminar cada parente que esteja entre ele e a herança.
O filme acerta ao evitar moralismos fáceis e apostar em uma sátira ácida sobre riqueza, privilégios e ressentimento de classe. Ainda assim, a sensação é de que poderia ter sido mais mordaz e ousado, explorando suas ideias com maior agressividade em vez de optar por um entretenimento mais leve e palatável. O grande destaque fica por conta de Margaret Qualley, cuja dinâmica de poder e manipulação com o protagonista rende alguns dos momentos mais interessantes da trama.

Cinema, música, tokusatsu e assuntos aleatórios, não necessariamente nessa ordem



























