Tempos urgentes e as armadilhas do hype
Tempinho atrás, passei por um post de uma pessoa no Instagram, falando de como ela havia abandonado as séries, para focar nos filmes. Segundo a pessoas, as séries calcam-se em roteiros apelões, as reviravoltas mirabolantes, enquanto que focando nos filmes, a pessoa descobriu os clássicos de Antonioni e Bergman e acabou reencontrando o prazer pelo audiovisual. É um movimento perfeitamente compreensível. O ritmo da indústria do streaming hoje é exaustivo. No entanto, esse post me fez pensar: será que o problema é realmente o formato de série, ou a forma como fomos condicionados a consumi-lo?
Quando nos pautamos apenas pelo que está no topo do catálogo ou pelos tópicos mais comentados das redes sociais, a chance de frustração é imensa. A dinâmica atual do streaming exige que uma série cause um impacto estrondoso em uma semana para não ser cancelada na próxima. Isso gera, inevitavelmente, roteiros moldados para prender a atenção pelo choque, e não pela profundidade.
Mas, essa mesma régua precisa ser aplicada aos filmes. Se um espectador decidir se pautar apenas pelos lançamentos mais comerciais, pelos blockbusters de super-heróis ou pelo que o circuito comercial de shopping tem de mais genérico, ele vai encontrar exatamente os mesmos problemas: roteiros previsíveis, fórmulas de estúdio engessadas, excesso de estímulos visuais vazios e pouca ou nenhuma substância artística. O cinema comercial também pode ser tão pasteurizado e manipulador quanto o pior algoritmo de streaming. É um pouco sem nexo comparar as seriezinhas populares no momento na Netflix com Antonioni. Eu poderia fazer um texto parecido, de como abandonei a superficialidade do cinema, dos filmes da marvel, para assistir series clássicas como Sopranos ou The Wire, e que por isso series são superiores a filmes. Só que cinema não é só Marvel, assim como série não é só strange things
Assim como existem Bergman, Antonioni ou o cinema independente contemporâneo, a televisão e o streaming continua produzindo obras que são interessantes e complexas. Pra mim, o lance não é escolher entre o filme ou a série, mas sim escolher o que assistir pela curiosidade genuína, e não porque o mundo decretou que você é obrigado a ver. Pra ser mais feliz seja vendo filmes, seja vendo series, o segredo é abrir mão de seguir o hype.






