Será que os fãs precisam saber mesmo de tudo?
Tá rorlando no twitter alguns trechos do Always Lalisa, documentário que acompanha Lisa durante um período importante de sua carreira solo, acompanhando a preparação para Alter Ego, sua tentativa de expandir os próprios talentos e a preparação para o Coachella. Alguns desses trechos, como o que mostra que a cantora ficou abalada com a recepção morna do álbum no Pitchfork, ou com os comentários de negativos online. O documentário quer humanizar a estrela, mostrar como ela é extremamente dedicada e está tentando provar a si mesma que consegue fazer mais do que aquilo que o público já conhece. Mas, eu acho que, às vezes, rola um oversharing entre as cantoras pop atuais. Porque admitir que a nota mediana do seu álbum, ou que comentários de haters nas redes sociais a afetam, talvez não seja a melhor ideia.
Companheira de Lisa no BLACKPINK, Rosé já falou que procura o próprio nome no Twitter e ler o que as pessoas estão dizendo sobre ela. Em entrevistas, contou inclusive como os comentários negativos podem afetá-la. Com certeza, satisfazendo muitos haters que adoraram a confirmação de que conseguem atingi-la. Só que tem uma diferença entre elas. O tipo de música que Rosé produz solo é mais confessional e emotiva. A persona de Rosé funciona muito bem dentro dessa lógica da artista que deixa o público olhar para dentro de sua vida e transformar experiências pessoais em música. Com Lisa, acho que a situação é um pouco diferente. Boa parte da imagem que ela construiu como artista solo está baseada em autoconfiança, poder e independência. Por isso, descobrir que comentários de estranhos conseguem deixá-la tão para baixo produz um efeito diferente.
Não é que a Lisa tenha que ser inabalável. Ela é humana. O problema é: será que todo sentimento precisa ser transformado em conteúdo?
Essa é uma questão que vai muito além de Lisa. As redes sociais normalizaram uma exposição que, há alguns anos, seria considerada estranha. Hoje, muita gente conta para desconhecidos o que esta sentindo, mostra as crises, os relacionamentos, as brigas, as inseguranças e até o que estamos pensando enquanto pensamos. Para artistas, existe uma camada adicional: a internet faz parte do trabalho.
As novas pop girls cresceram em um ambiente no qual estar online não é só uma ferramenta promocional complementar. Era parte da construção da carreira.
Elas aprenderam a divulgar músicas pelas redes sociais, conversar com fãs, acompanhar tendências, entender memes, observar o que viraliza, participar de fandoms e transformar pequenos momentos pessoais em conteúdo. A relação direta entre artistas e público se tornou uma parte importante da cultura pop contemporânea. No K-pop, isso é ainda mais evidente: plataformas como V Live e Weverse ajudaram a aproximar idols e fãs em uma relação praticamente contínua, que muitas vezes acaba se tornando parassocial.
Só que a gente fala muito do fã que vê o artista como alguém próximo, mas do outro lado ser hater também é comportamento parassocial, afinal, você está dedicando uma enorme parcela do seu tempo a essa pessoa que supostamente odeia. E também há o artista que é afetado por esses comentários de desconhecidos, anônimos.
Tem coisas que é melhor ficar no consultório do analista. Não porque esses sentimentos sejam vergonhosos, mas justamente porque eles são pessoais.
O público não precisa saber tudo. Os fãs não precisam saber tudo. E, principalmente, a artista não precisa saber tudo o que o público está dizendo.





