Tem westerns, cinema nacional e muita ação
Drácula 3D (2012)
Jonathan Harker viaja até um vilarejo remoto da Transilvânia para trabalhar na biblioteca do Conde Drácula. Ao descobrir que o aristocrata é, na verdade, um vampiro centenário, Harker acaba se tornando prisioneiro em seu castelo. Cabe então ao caçador de vampiros Abraham Van Helsing confrontar a criatura antes que sua sede de sangue se espalhe e ameace toda a cidade.
Drácula 3D é um dos filmes mais irregulares da carreira de Dario Argento, mas ainda assim é uma boa pedida para amantes do cinema trash e fãs do diretor — grupos dos quais faço parte. Argento transforma o romance gótico em um espetáculo de horror exagerado, recheado de sangue, erotismo, criaturas digitais e efeitos em 3D. O resultado acaba sendo muito mais cômico do que assustador, talvez de forma involuntária… ou talvez não. O CGI é ruim, e algumas atuações são bastante artificiais. Ainda assim, há algo curiosamente divertido em ver Argento abraçando todos os excessos. De certa forma, ele faz aqui tudo o que Luc Besson tentou realizar com sua chatíssima adaptação do romance de Bram Stoker lançada no ano passado, mas com uma diferença fundamental: o Drácula de Argento consegue realmente ser estranho, exagerado e cafona.
E isso é justamente o seu charme. A tão comentada cena em que o conde se transforma em um louva-a-deus gigante feito em CGI é um primor do nonsense. Thomas Kretschmann está divertido no papel de Drácula, enquanto Rutger Hauer traz sua presença naturalmente carismática para Van Helsing. Além disso, o filme ainda conta com a trilha de Claudio Simonetti e, claro, a beleza estonteante de Asia Argento. No fim das contas, Drácula 3D está longe de ser um bom filme no sentido tradicional, mas seus defeitos e excessos fazem parte da diversão.
O Homem Que Luta Só (Ride Lonesome, 1959)
O caçador de recompensas Ben Brigade captura o jovem assassino Billy John e parte em direção a Santa Cruz, onde o prisioneiro deverá ser enforcado. Durante a viagem por um território árido e hostil, Brigade se vê obrigado a seguir ao lado de dois fora da lei, interessados em tomar Billy John para conseguir anistia por seus próprios crimes.
Ride Lonesome é um dos melhores exemplos do western enxuto e preciso de Budd Boetticher. Em apenas 73 minutos, o diretor constrói uma história de vingança, ganância e redenção sem desperdiçar cenas ou diálogos. A simplicidade da trama esconde personagens ambíguos, cujas verdadeiras motivações são reveladas gradualmente. Boetticher faz excelente uso das paisagens abertas para destacar a solidão e a fragilidade dos personagens diante da imensidão do Oeste. O resultado é um western seco, elegante e melancólico, que transforma uma simples jornada de perseguição em uma reflexão sobre vingança, culpa e solidão.
Randolph Scott está excelente como o lacônico Ben Brigade, um homem movido por um desejo de vingança que se torna cada vez mais evidente ao longo da história. Ao seu redor, os demais integrantes do elenco criam uma dinâmica marcada pela desconfiança e por interesses conflitantes, mantendo a tensão constante durante toda a jornada. Ride Lonesome mostra por que a parceria entre Budd Boetticher e Randolph Scott é uma das mais importantes do western. Com poucos personagens, uma história aparentemente simples e grande domínio da narrativa visual, o filme constrói um retrato marcante de homens isolados, presos tanto à vastidão do Oeste quanto às consequências de suas próprias escolhas.
Desafio das Águias (Where Eagles Dare, 1968)
Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de agentes aliados recebe uma missão quase impossível: infiltrar-se em uma fortaleza nazista situada no alto dos Alpes da Baviera e resgatar um general americano que possui informações vitais sobre os planos do Dia D. Liderados pelo major Jonathan Smith, os agentes precisam entrar no castelo disfarçados de soldados alemães. A missão, porém, se torna ainda mais perigosa quando surge a suspeita de que existe um traidor entre eles.
Desafio das Águias demora um pouco para engrenar em sua primeira metade, mas ganha força à medida que as reviravoltas começam a se acumular. A segunda parte do filme entrega ótimas cenas de ação, com destaque para as sequências no teleférico, que são bem empolgantes. A dupla formada por Richard Burton e Clint Eastwood funciona bem, reunindo dois estilos bastante diferentes de protagonistas. O filme também conta com a presença de Ingrid Pitt, ainda em um papel menor, antes de se tornar uma das grandes musas dos filmes da Hammer.
Mortal Kombat II (2026)
Após os acontecimentos do primeiro filme, os campeões da Terra precisam se preparar para uma nova ameaça. Shao Kahn, o imperador de Outworld, pretende conquistar o planeta e eliminar seus defensores. Liderados pelo Deus do Trovão, Raiden, guerreiros veteranos como Liu Kang, Sonya Blade e Jax unem forças com novos aliados, entre eles o astro das artes marciais Johnny Cage e a destemida Princesa Kitana.
Mortal Kombat II representa uma evolução em relação ao filme de 2021, o que não diz muito. O principal problema continua sendo justamente aquilo que deveria ser o ponto forte da produção: os combates. O torneio não é tão mortal quanto deveria, e boa parte das lutas são genéricas. A exceção é o confronto entre Liu Kang e Kung Lao, a melhor sequência do filme. A luta combina golpes rápidos com o uso criativo do clássico chapéu afiado de Lao, resultando em um combate mais inventivo e empolgante que os demais.
Karl Urban também não convence na tentativa de vender a imagem de astro das artes marciais dos anos 1990. O maior ganho do filme acaba sendo a redução do espaço dado ao péssimo Cole Young, protagonista e um dos elementos mais criticados do longa anterior. Kitana é bem mais interessante e felizmente tira o protagonismo de Cage nos momentos finais da bagaça.
Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing, 1965)
Recém-chegada a Londres, Ann Lake deixa sua filha, Bunny, em uma escola infantil antes de voltar para casa. Quando retorna para buscá-la, a menina desapareceu — e o mais perturbador é que ninguém parece se lembrar dela. O inspetor Newhouse, da Scotland Yard, assume a investigação e passa a descobrir detalhes cada vez mais estranhos sobre a família Lake. Apoiada apenas por seu irmão superprotetor, Steven, Ann precisa provar sua própria sanidade.
Dirigido com grande domínio por Otto Preminger, Bunny Lake Desapareceu é uma excelente aula de suspense psicológico e paranoia. Com sua fotografia em preto e branco e enquadramentos que reforçam a sensação de isolamento e desconforto, Preminger conduz o espectador com precisão, fazendo com que também passemos a questionar o estado mental da protagonista e a realidade ao seu redor. Carol Lynley transmite muito bem o desespero de uma mãe que não consegue fazer ninguém acreditar em sua história, enquanto Laurence Olivier dá credibilidade e sobriedade ao inspetor encarregado de desvendar o mistério. A atmosfera inquietante da Londres dos anos 1960 contribui para a crescente sensação de paranoia, até que o filme chega a um terceiro ato tenso e inquietante.
Manas (2024)
Marcielle, de 13 anos, vive com o pai, a mãe e os três irmãos em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó. À medida que cresce, suas idealizações sobre a vida começam a ruir, e ela se vê presa em um ambiente abusivo e marcado pela violência. Consciente de que o futuro parece lhe oferecer poucas alternativas, Marcielle decide confrontar a estrutura que mantém esse ciclo dentro de sua própria comunidade.
No papel, Manas até parece uma proposta interessante. O problema é que o filme desenvolve seu tema da maneira mais preguiçosa e previsível possível. É o tipo de produção que parece construída para circular em festivais e receber elogios prontos, como “um soco no estômago” ou “um tapa na cara”, mas que, na prática, pouco acrescenta ao debate sobre um problema conhecido e denunciado há décadas. O filme se limita, em grande parte, a retratar o sofrimento de seus personagens. A câmera observa, acompanha e registra suas experiências, mas raramente parece interessada em ir além disso. Falta um mergulho mais profundo nas estruturas sociais e políticas que sustentam aquela realidade. Ao optar por observar seus personagens de maneira relativamente distanciada, Manas acaba se acomodando na posição de filme-denúncia, mas sem realmente ampliar a discussão.
O resultado é uma obra que aposta mais no impacto imediato do sofrimento do que em uma abordagem realmente complexa do problema. Seu desfecho também segue um caminho bastante convencional, parecendo construído para oferecer uma conclusão de fácil assimilação e agradar expectativas mais simples do público. Nesse sentido, a personagem interpretada por Dira Paes acaba funcionando quase como uma representação involuntária do próprio roteiro: demonstra indignação diante do que acontece, mas faz pouco para aprofundar as causas do problema ou apontar caminhos além da simples constatação de que aquela realidade é cruel. Manas certamente trata de um tema importante e grave, mas importância do assunto não é suficiente para garantir profundidade.
The Furious (2025)
Quando sua filha é sequestrada por uma organização criminosa e a polícia corrupta se recusa a ajudá-lo, Wang Wei decide fazer justiça com as próprias mãos. Em sua busca desesperada, ele se une a Navin, um jornalista cuja esposa também desapareceu. Juntos, os dois enfrentam uma violenta rede criminosa em uma jornada de vingança que rapidamente se transforma em uma sucessão de combates brutais.
Dirigido por Kenji Tanigaki, veterano coordenador de lutas, The Furious constrói uma narrativa de vingança simples e funcional, que serve principalmente como combustível para uma impressionante sequência de confrontos. A influência de The Raid é evidente, inclusive pela presença de Joe Taslim e Yayan Ruhian no elenco, mas o filme consegue encontrar sua própria identidade.
Os protagonistas funcionam bem, e a dupla infantil também cativa, mas o grande mérito do filme está, sem dúvida, nas cenas de ação. Os combates são rápidos, violentos, criativos e muito bem executados. Tanigaki filma as lutas com clareza e energia, valorizando as coreografias e uma fisicalidade quase absurda que é justamente o que eu adoro. O duelo final, envolvendo múltiplos adversários, é particularmente impressionante e entrega exatamente o tipo de espetáculo que se espera de um filme de artes marciais. É uma sequência criativa, intensa e extremamente bem coreografada.
The Furious entende que, em um filme como esse, a ação não deve ser apenas um intervalo entre os momentos da história: ela é o principal motivo para acompanhá-la. E é justamente essa disposição para levar suas lutas ao limite que faz o filme se destacar. É também o tipo de coreografia e fisicalidade exagerada que faz falta nas adaptações cinematográficas de Mortal Kombat. Um pouco mais dessa criatividade e desse senso de espetáculo faria uma enorme diferença.
Herói do Submundo (Hero of the Underworld, 2016)
Dylan Berrick é o gerente do turno da noite de um luxuoso hotel, onde mantém a aparência de um profissional impecável. Por trás dessa fachada, porém, esconde uma grave dependência de drogas. Quando uma jovem é violentamente agredida pelo namorado dentro do hotel, Dylan decide ajudá-la ao mesmo tempo em que precisa enfrentar seus próprios demônios.
Hero of the Underworld tenta equilibrar o drama psicológico sobre o vício com elementos de thriller policial urbano, mas acaba ficando no meio do caminho. Com uma produção modesta e ritmo oscilante, o filme apresenta alguns momentos interessantes, mas sofre com atuações irregulares e uma montagem que não consegue transformar o longa em um drama realmente intenso.
Ainda assim, há sinceridade na tentativa de abordar temas como vício, culpa e redenção. Herói do Submundo é um pequeno drama policial que tem mais coração do que refinamento. Suas limitações de produção e execução impedem que alcance todo o potencial de sua premissa, mas existe uma honestidade em sua abordagem que torna a experiência mais interessante do que seus defeitos poderiam sugerir.
Renegados (Serena and the Ratts, 2012)
Serena and the Ratts podia muito bem ser o nome de uma banda, não é? Mas é o título deste filme, que conta a história de Serena, uma jovem treinada desde cedo para se tornar uma assassina de aluguel. Depois de anos trabalhando para um misterioso homem conhecido apenas como The Boss, ela começa a se cansar dessa vida. Em seu último trabalho, Serena recebe a missão de impedir um assassinato envolvendo um cientista que descobriu uma forma de viajar no tempo. Porém, em vez de cumprir suas ordens, ela acaba se aliando aos Ratts, um grupo clandestino, e passa a enfrentar aqueles que desejam controlar essa descoberta e alterar o equilíbrio do mundo.
Confesso que comecei a assistir ao filme por causa da protagonista bonita no cartaz do streaming. Esperava encontrar um filme de ação convencional, mas acabei me deparando com uma ficção científica cheia de paradoxos. Serena and the Ratts é uma produção ambiciosa, que tenta combinar ação, viagem no tempo, conspirações e personagens moralmente ambíguos com recursos bastante modestos. As limitações orçamentárias, por si só, não seriam um grande problema, já que existe uma criatividade genuína por trás da produção de Kevin James Barry.
O maior problema está mesmo na execução. O roteiro é confuso, acumula ideias sem conseguir organizá-las de forma satisfatória e a história nunca chega a realmente engrenar. O filme parece ter elementos suficientes para se tornar algo interessante, mas não consegue aproveitar todo o potencial de sua premissa. No fim, o interesse acaba mesmo sendo sustentado unicamente por Evalena Marie. Sua personagem parece uma espécie de encontro entre Nikita e Donnie Darko, e a atriz tem presença suficiente para manter a curiosidade mesmo quando o roteiro se perde entre seus próprios paradoxos.
Aceleração Máxima (Acceleration, 2019)
Rhona é uma ex-criminosa que trabalha para Vladik, um implacável chefe do crime em Los Angeles. Quando Vladik sequestra seu filho, ela é obrigada a cumprir uma série de missões contra alguns de seus maiores rivais. Rhona tem apenas uma noite para completar a tarefa e salvar a criança.
Acceleration é um típico filme de ação construído para colocar uma protagonista durona diante de uma sucessão de criminosos e situações perigosas. Até aí, nada de errado. Natalie Burn é o grande destaque como Rhona, demonstrando boa presença física (de lingerie, inclusive) e convencendo nas sequências de luta. A premissa de uma mãe obrigada a cumprir várias missões ao longo de uma única noite também tinha potencial para render um thriller realmente frenético.
O problema é que o filme desacelera (desculpa) bastante ao longo da projeção. Apesar da promessa de ação constante no título, o ritmo é irregular. A produção também sofre com uma iluminação exageradamente colorida, claramente inspirada no visual de John Wick, mas sem a mesma competência técnica. Os efeitos digitais são de uma ruindade extrema, especialmente os buracos de bala deixados pelos tiros. Há ainda participações breves de nomes conhecidos do cinema de ação, como Danny Trejo e Quinton “Rampage” Jackson, mas apenas Dolph Lundgren consegue tempo relevante em cena. O filme nunca acelera (desculpa), mas possui um certo charme graças a Natalie, que se esforça para carregar a bagaça nas costas e mantém o interesse mesmo quando a produção perde velocidade (desculpa).
Alpha (2025)
Alpha, uma adolescente de 13 anos, vive com a mãe, uma médica que trata pacientes afetados por uma misteriosa doença sanguínea. Depois de voltar de uma festa com uma tatuagem recente no braço, Alpha passa a ser suspeita de estar infectada. O medo e os rumores fazem com que ela seja rejeitada pelos colegas, enquanto, dentro de casa, sua relação com a mãe e com o tio Amin, um dependente químico que retorna para perto da família, torna-se cada vez mais complicada.
Julia Ducournau mantém em Alpha seu fascínio pelo body horror, mas troca parte do impacto visceral de Raw e Titane por um drama mais melancólico e emocional. A atmosfera é inquietante, enquanto a direção de arte e a maquiagem contribuem muito para a identidade visual do filme. Mélissa Boros entrega uma atuação convincente como uma adolescente perdida entre o medo da doença e a rejeição social.À primeira vista, pode parecer que Ducournau chegou tarde demais para abordar metaforicamente a AIDS, mas a diretora encontra uma abordagem própria e constrói um trabalho tocante sobre preconceito, dependência química, relações familiares e amadurecimento.
Alpha talvez não tenha o mesmo impacto imediato dos trabalhos anteriores de Ducournau, mas compensa isso com uma abordagem mais sensível e melancólica. É um filme visualmente interessante, sustentado por boas interpretações e por momentos de considerável força emocional.
Os Queridinhos da América (America’s Sweethearts, 2001)
Gwen Harrison e Eddie Thomas são um famoso casal de estrelas de Hollywood que, depois de anos de sucesso juntos, enfrentam uma turbulenta separação. Para promover o último filme da dupla, o experiente publicitário Lee Phillips precisa convencer os dois a fingir que continuam apaixonados diante da imprensa. Kiki, irmã e assistente de Gwen, é encarregada de ajudar a controlar a situação, mas acaba se aproximando cada vez mais de Eddie e descobrindo que seus sentimentos por ele vão além da amizade.
Tinha tudo para ser uma ótima sátira da indústria de Hollywood: um elenco talentoso, uma premissa interessante e Billy Crystal envolvido no roteiro. O problema é que o filme passa longe de explorar todo esse potencial. Em vez de investir mais na sátira e na comédia de bastidores, prefere seguir o caminho de uma comédia romântica bastante convencional. Há poucas situações realmente engraçadas, e o universo de Hollywood, que poderia render boas observações sobre celebridades, imprensa e a fabricação de imagens públicas, acaba servindo apenas como pano de fundo para o romance. A conclusão envolvendo a aguardada exibição do filme dentro do filme também decepciona, especialmente depois de toda a expectativa construída ao longo da história. No fim, Os Queridinhos da América reúne talento e uma boa ideia, mas entrega muito menos do que poderia.
O Bom Pastor (The Good Shepherd, 2006)
Jovem ingressa em sociedade secreta na universidade e depois vira agente de inteligência do governo americano. Mas, para obter sucesso no trabalho, acaba sacrificando a vida pessoal e a família.
Se Clint Eastwood aprendeu muito sobre direção com Sergio Leone e Don Siegel, o mesmo não pode ser dito de Robert de Niro com Martin Scorsese. Enquanto um filme com mais de 3 horas dirigido por Martin parece durar uns 90 minutos um filme de duas horas e 47 dirigido por Bobby parece durar umas cinco. É cansativo e se complica desnecessariamente com um constante entra e sai de personagens que nem sempre são bem apresentados ou desenvolvidos. E Eddie Redmayne é um ator terrível.
De Niro claramente busca construir um grande épico sobre os bastidores da inteligência americana e os sacrifícios pessoais exigidos por esse universo, mas faltou à direção o ritmo necessário para tornar essa longa jornada realmente envolvente.
A Boca do Diabo (The Devil’s Mouth, 2026)
Cinco amigos viajam para a Tailândia em busca de uma última aventura antes de começarem a vida adulta. Durante uma expedição pelas cavernas submersas conhecidas como Boca do Diabo, um enorme labirinto de túneis inundados, o grupo passa a ser perseguido por um tubarão. Com as possibilidades de fuga cada vez menores, antigos conflitos vêm à tona e a amizade entre eles começa a desmoronar enquanto lutam para sobreviver.
Terror de sobrevivência bastante convencional, daqueles em que, em vários momentos, acabamos torcendo mais pelo monstro do que pelos personagens. Jeff Wadlow, no entanto, aproveita bem o ambiente claustrofóbico das cavernas e consegue criar algumas sequências eficientes, especialmente quando os personagens precisam atravessar espaços estreitos.
Kathryn Newton e Lana Condor são bonitas e carismáticas, conseguindo sustentar i filme e dar alguma dimensão aos conflitos entre as suas personagens. No fim, fica uma pequena lição: algumas amizades realmente só servem para puxar você para baixo — literalmente.
Paixão à Flor da Pele (Wicker Park, 2004)
Matthew (Josh Hartnett) é um jovem executivo de Chicago que está noivo e prestes a viajar a negócios. Sua vida muda drasticamente, porém, quando acredita ver Lisa (Diane Kruger), o grande e misterioso amor de seu passado, que desapareceu sem explicações anos antes, em um restaurante. Obcecado em reencontrá-la, Matthew adia a viagem e mergulha em uma busca frenética pela cidade. Ao seguir pistas que o levam até o apartamento de Lisa, ele conhece outra jovem que também se chama Lisa (Rose Byrne), dando início a uma série de desencontros e confusões que tornam sua busca ainda mais complicada.
Melodrama romântico eficiente, conduzido com competência por Paul McGuigan que se utiliza de flashbacks e telas divididas para construir uma atmosfera de mistério, desencontros e obsessão amorosa. Mas o destaque do filme é Rose Byrne. Ela tem uma excelente atuação, trazendo uma vulnerabilidade ao mesmo tempo perturbadora e trágica para sua personagem. É justamente sua presença que dá mais força emocional à história.
Barba Ensopada de Sangue (2024)
Após a morte do pai, Gabriel parte para a praia da Armação em busca de suas origens. Lá, ele se depara com uma trama complexa envolvendo a figura misteriosa do avô, um esqueleto de baleia e uma cidade aparentemente disposta a enterrar seu passado a qualquer custo.
Nunca li o romance homônimo de Daniel Galera, portanto não faço a menor ideia de quão fiel é a adaptação. Como filme, porém, Barba Ensopada de Sangue parece ter o escopo de um drama sobre memória, identidade e pertencimento, mas insiste demais em elementos de suspense que simplesmente não conseguem gerar tensão. A narrativa apresenta vários mistérios, mas poucos deles despertam verdadeira curiosidade. Mesmo a informação de que Gabriel tem dificuldade para reconhecer rostos, que poderia ser um elemento importante, acaba tendo pouca utilidade. O resultado é um filme que promete mais do que entrega e, apesar de seus temas potencialmente interessantes, acaba se tornando uma experiência bastante tediosa.
Terra de Pistoleiros (Gunslingers, 2025)
Thomas Keller é um fora da lei com uma enorme recompensa por sua cabeça que procura refúgio em uma pequena cidade habitada por criminosos que forjaram suas próprias mortes para começar uma nova vida. A tranquilidade do lugar é ameaçada quando um violento grupo chega em busca de Keller, transformando a cidade em um verdadeiro campo de batalha.
Gunslingers tenta recuperar o espírito dos westerns de cerco, mas acaba parecendo um filme feito por alguém que conhece o gênero apenas de longe. Os tiroteios são numerosos, mas a montagem confusa, as situações pouco convincentes e os diálogos cheios de clichês impedem que a ação tenha o impacto desejado. O filme também insiste em prolongar momentos de suspense muito além do necessário. Somada a isso, a fotografia excessivamente escura dá à produção uma aparência que lembra uma versão piorada do Zack Snyder.
Nicolas Cage, por sua vez, rouba a cena — embora nem sempre da melhor maneira. Sua atuação é tão extravagante e bizarra que se torna difícil levá-lo a sério. Há tiros, violência e personagens excêntricos de sobra, mas falta ao filme justamente aquilo que um bom western de cerco precisa ter: personagens pelos quais valha a pena se importar.
Evolução (Evolution, 2001)
Quando um meteoro cai no deserto do Arizona, os professores Ira Kane e Harry Block descobrem que ele trouxe organismos extraterrestres capazes de evoluir em uma velocidade impressionante. Em poucas horas, as criaturas passam de formas microscópicas a seres cada vez maiores e mais perigosos. Quando o Exército assume o controle da descoberta, Ira e Harry precisam se unir ao aspirante a bombeiro Wayne e à cientista Allison Reed para impedir que a evolução acelerada dos alienígenas coloque toda a humanidade em risco.
Evolução parte de uma premissa interessante e tem nas criaturas seu principal (e talvez único) grande atrativo. Os diferentes estágios da evolução dos alienígenas são criativos e dão ao filme uma identidade visual própria, especialmente à medida que os seres se tornam cada vez mais estranhos e perigosos. O problema está na comédia. As piadas são, em sua maioria, fracas e pouco inspiradas. A ideia poderia render algo divertido, mas o roteiro parece mais interessado em acumular piadas sem graça do que em explorar melhor sua própria premissa. Nem David Duchovny parodiando Arquivo X salva. Ivan Reitman já fez melhor.
Vingar o Sangue (Pixie, 2020)
Pixie é uma jovem determinada a deixar para trás sua pequena cidade na Irlanda. Para vingar a morte da mãe e conseguir dinheiro suficiente para começar uma nova vida, ela planeja um assalto. Quando tudo dá errado, Pixie acaba fugindo ao lado de Frank e Harland, dois rapazes inexperientes que se envolvem involuntariamente em uma perigosa guerra entre criminosos. Com drogas roubadas, um cadáver no porta-malas e uma mistura de padres criminosos e mafiosos em seu encalço, os três atravessam o interior da Irlanda tentando sobreviver e escapar de seus perseguidores.
Pixie é uma comédia policial que se torna irresistível graças à performance magnética e cheia de carisma de Olivia Cooke. A atriz constrói uma protagonista manipuladora, inteligente e completamente dona do próprio destino, enquanto seus companheiros de cena funcionam justamente pelo contraste: são tão ingênuos e tontos quanto os irmãos Dean e Hank, da animação The Venture Bros. A ambientação irlandesa também dá bastante personalidade à produção, e algumas das situações absurdas funcionam muito bem. O filme sabe aproveitar seu humor, seus personagens excêntricos e o caos crescente da história sem levar nada excessivamente a sério.
Divertido e estiloso, Pixie lembra os tempos em que Guy Ritchie ainda conseguia nos enganar com pérolas despretensiosas como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes. Não reinventa a comédia policial, mas tem personalidade e, principalmente, uma protagonista carismática o suficiente para fazer a viagem valer a pena.
Corrida dos Bichos (2026)
Em um futuro distópico, o Rio de Janeiro foi devastado por uma catástrofe ambiental e o antigo jogo do bicho se transformou em uma competição mortal. Os participantes, conhecidos como Bichos, precisam correr por uma cidade em ruínas enquanto pessoas ricas apostam nos resultados. Quando sua irmã se torna a garantia de um dos competidores, Mano, um jovem ligado à resistência contra o jogo, é obrigado a entrar na disputa para salvá-la. Para vencer, ele terá de formar alianças improváveis e enfrentar um sistema que transformou desigualdade e violência em espetáculo.
Corrida dos Bichos é uma produção bem realizada. O Rio de Janeiro pós-catástrofe tem uma identidade visual interessante, e as corridas proporcionam bons momentos de ação. O filme tem muito de O Sobrevivente e Jogos Vorazes, mas também lembra bastante B13 – 13º Distrito, divertidíssimo filme francês de ação e distopia. A narração de Anitta tem algo da locutora de The Warriors.
Matheus Abreu sustenta bem o protagonista e tem boa química com uma lindíssima Ísis Valverde. Rodrigo Santoro também se destaca como a figura mais interessantes entre os antagonistas.
Falou-se bastante sobre a maneira superficial como o filme desenvolve sua crítica social, mas isso não chegou a me incomodar. A intenção de Corrida dos Bichos é claramente voltada para o entretenimento, assim como acontece com várias das distopias que lhe serviram de inspiração. Não esperava muito, mas acabou sendo uma experiência bastante divertida. Gosto quando o cinema nacional se arrisca em gêneros pouco explorados por aqui, especialmente quando consegue criar um espetáculo com identidade própria. Assistiria tranquilamente a uma continuação.
E fica a sugestão: a Sato Company bem que poderia procurar Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, que codirigiram o filme com Fernando Meirelles, para comandar o futuro longa de Jaspion. Depois de Corrida dos Bichos, seria interessante ver o que essa equipe poderia fazer com uma produção de ação e fantasia japonesa adaptada ao cinema brasileiro.

Cinema, música, tokusatsu e assuntos aleatórios, não necessariamente nessa ordem

























