Assisti às duas adaptações de Mestres do Universo pela primeira vez

Parece que é muito díficil adaptar as aventuras do He-Man

Apesar de ter crescido assistindo a animação He-man- e Os Mestres do Universo (1982), nunca tinha assistido a sua adaptação cinematográfica. Acho que passou a noite quando eu era muito pequena e, talvez porque que meus irmãos mais velhos não gostaram, nunca me interessei. Agora, aproveitando a nova adaptação, resolvi dar uma conferida em ambos.

É curioso perceber que as duas versões live-action de Mestres do Universo — a de 1987, dirigida por Gary Goddard, e a nova, de 2026, dirigida por Travis Knight — embora sigam por caminhos diferentes, terminem errando no mesmo ponto. Ambas parecem desconfortáveis com a essência da animação clássica, uma série infantil. Eternia era um mundo vibrante, povoado por guerreiros musculosos com nomes absurdos, criaturas estranhas, tecnologia impossível, magia e um senso constante de descoberta. Havia humor bobinho, aventura leve e lições lúdicas. Era um universo criado para estimular a imaginação de uma criança e sua compreensão do que é certo e o que é errado, uma espécie de fábula oitentista para encantar o coração das crianças da época.

O filme de 1987, estrelado por Dolph Lundgren, toma a direção oposta. A trama acompanha He-Man enfrentando Esqueleto, que conquista o Castelo de Grayskull e obriga o herói e seus aliados a fugirem para a Terra utilizando uma chave dimensional criada por Gwildor. Provavelmente por razões orçamentárias (o filme é da Cannon, que no mesmo ano lança ainda Superman IV: A Busca pela Paz), em grande parte da trama, Eternia é abandonada, se passando em uma pequena cidade americana, onde He-Man se alia a dois jovens humanos e passa a maior parte do tempo tentando recuperar a chave enquanto é perseguido pelos soldados de Esqueleto.

O filme se leva a sério demais, especialmente para um filme de fantasia lançado em plena década de 1980, um período em que o cinema popular costumava ser mais extravagante, colorido e bem-humorado. Falta cor, falta senso de aventura e, principalmente, falta diversão. A decisão de transferir a maior parte da narrativa para a Terra reduz drasticamente o potencial do universo de Eternia. Em vez de explorarmos um mundo fantástico repleto de aliados e inimigos memoráveis, acompanhamos um grupo reduzido de personagens (He-man, Mentor, Teela, Homem-Fera, Maligna) andando por estacionamentos, becos e casas suburbanas em busca de um objeto mágico. Um tédio.

A versão de 2026 parece, à primeira vista, corrigir exatamente esses problemas. O filme é muito mais colorido, passa mais tempo em Eternia e demonstra maior preocupação em recriar visualmente o universo da franquia, mas falha de outras maneiras. Assim como em 1987, Esqueleto derrota as forças do bem e domina Etérnia, para proteger o príncipe Adam e os segredos do Castelo de Grayskull, a Feiticeira envia o menino e a Espada do Poder para a Terra. Adam cresce entre humanos, tendo seu passado em Eternia tratado apenas como uma fantasia em que ninguém acredita. O arco do personagem gira em torno de ganhar confiança para finalmente se tornar o campeão de que Eternia precisa. Talvez, uma tentativa de criar identificação entre o público e o protagonista. Na prática, essa parte da narrativa é extremamente rasa. O filme pouco explica sobre sua vida na Terra: não sabemos direito se foi adotado, se viveu em um orfanato, quem são seus pais adotivos ou quais vínculos realmente construiu. A Terra existe apenas como um prólogo de apresentação do personagem, um mecanismo para reproduzir um arco de autoconfiança bastante genérico, sem um desenvolvimento realmente ou algum peso dramático.

Essa versão também tem mais humor, mas é um “humor Marvel”. O longa tenta constantemente equilibrar heroísmo, discursos sobre sentimentos e traumas, grandes conversas emocionais (chatíssimas) e piadas frequentes e fracas. O resultado é um tom instável e aquela cara de filme genérico de super-herói. O humor no filme, inclusive, funciona como um mecanismo de autoproteção, como se o filme tivesse medo de como o espectador vai encarar as bobices que tem na animação.

Isso fica evidente na questão dos nomes dos personagens. O filme faz uma brincadeira dizendo que nomes como Mandíbula, Fisto e Ariete seriam apelidos criados por Adam quando criança, por não se lembrar dos nomes verdadeiros daqueles guerreiros. O problema é que esses nomes verdadeiros nunca são revelados. A piada existe apenas para sinalizar ao espectador: “nós sabemos que esses nomes são bobos”. Em vez de abraçar a natureza infantil e imaginativa de He-Man, o filme tenta se distanciar dela, tratando o material original com uma certa ironia defensiva. É como se dissesse: “sim, isso é meio ridículo, mas vamos manter porque vocês conhecem assim”.

Esse problema também afeta o Esqueleto, interpretado por Jared Leto. No filme de 1987, Esqueleto, vívido por Frank Langella é bem sério, diferente do fanfarrão hilário da animação. Na nova versão, ele ganha um pouco mais de humor, porém continua sendo apresentado como uma figura aterrorizante. A escolha de aplicar um efeito pesado na voz do ator acaba prejudicando justamente o lado cômico do personagem. A voz lembra a de um Sentinela dos X-Men, tornando suas falas menos expressivas e dificultando que o humor funcione naturalmente. Definitivamente, não sou nenhuma fã do Leto, mas esse efeito meio que arruína a sua performance.

Outro ponto é que ambas as adaptações desperdiçam o enorme elenco de aliados e inimigos de Mestres do Universo. A franquia sempre foi rica em personagens visualmente marcantes e imediatamente reconhecíveis, mas as duas adaptações preferem criar figuras genéricas ou reduzir drasticamente a importância do elenco clássico. Como que nenhum dos filmes faz uso de personagens como Aquático, Gorpo ou o dragão Granamyr?

Fora isso, os personagens que chegam a ser utilizados passam longe das personalidades e carisma da animação. Eu sei, eu sei, uma adaptação não tem nenhuma obrigação de reproduzir aspectos da obra original. Porém, é tão maçante ver elementos bacanas do desenho sendo substituídos por algo mais sem graça e genérico. Do Esqueleto já falei. No filme dos anos 80, salva-se a elegância e o olhar marcante de Meg Foster como a Maligna. A nova versão, interpretada por Alison Brie, é esquecível. No novo filme, só o carisma de Camila Mendes como Teela se destaca. A Teela de Chelsea Field é legalzinha, mas não tem muito espaço no filme. Os He-mens… Até gosto do Dolph, mas seu He-man é apático e sem personalidade. O novo He-men (Nicholas Galitzine) é tonto e meio irritante. Aliás, nenhuma das versões utiliza a dinâmica Adam/ He-Man. Na versão oitentista, não há Adam, apenas He-Man; na nova, não há identidade secreta, mas Adam em algum ponto passa a se transformar escondido (???). O Mentor de 1987, interpretado por Jon Cypher é apagado e seu único traço de personalidade é estar sempre com fome (???); a versão de Idris Elba é alcoólatra, mas seu arco de redenção é mal-desenvolvido. O Homem-Fera e a Feiticeira aparecem em ambas as adaptações, mas todas as versões são fracas. O resto do bando do mal nos anos 80 consiste em esquisitos fantasiados e uns soldados que parecem que fugiram da Estrela da Morte de Star Wars. O filme de 2026 chega a utilizar outros personagens, mas eles não têm nenhuma relevância na trama, só estão lá.

Em resumo, os dois filmes se afastam do material original. A versão de 2026 tenta compensar isso com alguns momentos de fanservice, como a aparição do Gorpo para dar seu tradicional “conselho do dia” a utilização da música tema da série. Mas esses momentos funcionam mais como acenos nostálgicos do que como uma verdadeira incorporação do espírito da animação.

O desenho nunca pedia desculpas por ser um mundo de absurdos e castelos mágicos. Ele simplesmente acreditava naquele universo e convidava o espectador a brincar junto. O filme de 1987 tornou He-Man mais mudando, quase sem Eternia e seus seres mágicos. O de 2026 tem uma Eternia em neon, mas ri constrangido pela infantilidade e ingenuidade do material original. Nenhum deles chega a tocar o prazer da aventura, da imaginação e do exagero lúdico da animação.

He-Man: por que nenhuma adaptação live-action conseguiu capturar a magia de Mestres do Universo


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